Alguns tipos de HPV são causa necessária, porém não suficiente, para a grande maioria dos cânceres do colo do útero. Isso quer dizer que quase todos esses cânceres estão relacionados ao HPV, mas ter HPV não significa que a pessoa terá câncer.
Muito pelo contrário: a maioria das pessoas que entra em contato com o HPV nunca desenvolverá uma doença importante. Na maior parte das vezes, a infecção não causa sintomas ou lesões e, depois de algum tempo, deixa de ser detectada.
O HPV é extremamente comum e muitas pessoas entram em contato com o vírus logo nos primeiros anos de atividade sexual. Não é necessário ter tido múltiplos parceiros para adquirir HPV, embora um maior número de parceiros aumente a possibilidade de exposição ao vírus.
Na maioria das pessoas, o sistema imunológico controla a infecção e, em cerca de dois anos, o HPV deixa de ser detectado. É principalmente quando um HPV oncogênico persiste durante vários anos que aumenta a possibilidade de surgirem lesões precursoras do câncer.
Mesmo assim, o desenvolvimento do câncer não é uma consequência inevitável. Entre a infecção pelo HPV e o aparecimento de um câncer geralmente existe um processo que leva anos e passa pelo desenvolvimento de lesões precursoras, que podem ser identificadas e tratadas.
O que são as lesões precursoras?
As principais lesões precursoras do câncer do colo do útero são atualmente chamadas de lesões escamosas intraepiteliais de alto grau (HSIL).
Na histologia, elas correspondem principalmente às antigas denominações NIC 2 e NIC 3. Termos como displasia moderada, displasia acentuada e carcinoma in situ também podem aparecer em exames mais antigos.
Nem todas essas lesões apresentam exatamente o mesmo comportamento. Algumas, especialmente determinadas NIC 2, podem regredir espontaneamente e, portanto, algumas mulheres com NIC 2 podem ser abordadas conservadoramente (sem tratamento.
Já a NIC 3 apresenta maior potencial de progressão e deve ser tratada.
Por que algumas pessoas desenvolvem lesões e outras não?
A persistência de um HPV oncogênico é o principal fator para o desenvolvimento das lesões precursoras, mas não é o único.
O tipo de HPV envolvido também é importante — especialmente os HPV 16 e 18 —, assim como fatores relacionados à resposta imunológica e outros cofatores.
Pessoas com comprometimento importante da imunidade, como aquelas vivendo com HIV ou utilizando determinados medicamentos imunossupressores, apresentam maior probabilidade de persistência do HPV e de desenvolvimento de lesões precursoras.
Se não conseguimos eliminar o HPV, como podemos prevenir o câncer?
Esse é justamente um dos aspectos mais importantes dessa história: não precisamos eliminar o HPV com um medicamento para prevenir o câncer do colo do útero.
O que precisamos é identificar as pessoas nas quais um HPV oncogênico está presente e reconhecer aquelas que apresentam maior risco de ter ou desenvolver uma lesão precursora, mantendo-as sob vigilância ativa, ou seja, repetindo o teste em intervalos menores do que a população de risco padrão (não menos de um ano) e demais exames sempre que necessário (citologia e colposcopia).
Pelas novas Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, o teste de DNA-HPV oncogênico passou a ser o método primário recomendado para o rastreamento, a partir dos 25 anos.
Quando o resultado é negativo, para pessoas de risco habitual, o teste deve ser repetido em cinco anos. Quando um HPV oncogênico é encontrado, a conduta dependerá principalmente do tipo de HPV e, em algumas situações, do resultado da citologia.
Portanto, receber um resultado positivo para HPV oncogênico não significa que você tenha uma lesão precursora e muito menos câncer. Significa que essa informação deve ser utilizada para definir adequadamente os próximos passos do rastreamento.
A grande vantagem é que o câncer do colo do útero geralmente se desenvolve lentamente e dispomos de métodos muito eficazes para identificar as pessoas de maior risco, diagnosticar suas lesões precursoras e tratá-las antes que evoluam para câncer.